América Latina na vanguarda da crise climática: oportunidades estratégicas para o ecossistema de impacto

As mudanças climáticas não são mais apenas uma questão ambiental, são uma das forças que definem o mundo atual. Essa crise está transformando ecossistemas, economias e geopolítica, ao mesmo tempo em que afeta desproporcionalmente os países tropicais que menos contribuíram para o problema. Impulsionadas pelo aumento das emissões geradas pelo ser humano, as mudanças climáticas estão agora no centro das decisões globais sobre comércio, finanças, energia e segurança. 

Os impactos das mudanças climáticas são claramente visíveis na dimensão humana. Segundo o IPCC (2023), entre 3,3 e 3,6 bilhões de pessoas vivem em territórios com alta vulnerabilidade climática, onde a mortalidade associada a secas, tempestades e inundações entre 2010 e 2020 foi 15 vezes maior em comparação a regiões menos expostas. Além disso, estima-se que ocorram 70.000 deslocamentos internos diários devido a desastres relacionados ao clima, acumulando 250 milhões de pessoas deslocadas desde 2015 (ACNUR, 2025). Esses números ilustram como as mudanças climáticas aprofundam as desigualdades existentes, ampliando as lacunas entre países e exacerbando a vulnerabilidade de comunidades expostas a eventos extremos.

Em termos econômicos, a magnitude do impacto também é notável: estima-se que os custos de desastres naturais ultrapassem 58 bilhões de dólares para a região, incluindo efeitos em cascata sobre ecossistemas e economias locais (UNDRR, 2025). A América Latina e o Caribe são a segunda região mais propensa a desastres no mundo, depois da Ásia e do Pacífico, o que amplifica ainda mais a exposição a esses riscos (UNDRR, 2025). Esses custos são agravados por impactos que afetam a produção de alimentos, o comércio internacional e a estabilidade econômica, levando governos, bancos centrais e organizações internacionais a incorporar as mudanças climáticas como um risco tangível na tomada de decisões financeiras e econômicas.

De uma perspectiva ecológica, a crise climática multiplica as pressões sobre a natureza a níveis históricos. Por exemplo, com um aumento da temperatura global de 1,5 °C, os recifes de coral poderiam sofrer um declínio de até 90% (IPCC, 2023). Da mesma forma, 6,7 milhões de hectares de floresta primária tropical foram perdidos em 2024 devido a incêndios exacerbados pelo aquecimento global (WEF, 2025a). De acordo com o World Resources Institute (WRI), a América Latina estava no centro dessa tendência: o Brasil e a Bolívia ocupavam o primeiro e o segundo lugar no ranking global, com a perda florestal do Brasil aumentando de 1,14 milhão de hectares em 2023 para 2,82 milhões de hectares em 2024, enquanto a Bolívia registrou um aumento acentuado de cerca de 0,49 para 1,48 milhão de hectares (WRI, 2025). O Peru também entrou na lista dos cinco primeiros, com perdas que aumentaram de cerca de 0,15 para 0,19 milhão de hectares entre 2023 e 2024, destacando a crescente pressão sobre as florestas da região (WRI, 2025).

Em conjunto, este cenário demonstra que a crise climática não é apenas ambiental, mas também humana, financeira e ecológica, ameaçando os alicerces do desenvolvimento e da própria vida.

COP30: Avanços e desafios persistentes

Devido aos riscos, preocupações e consequências decorrentes deste desafio, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) reconhece o papel da atividade humana neste processo e busca estabilizar “as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera em um nível que evite interferências antropogênicas perigosas no sistema climático” (UNFCCC, 1992, p.4). A Convenção estabeleceu a Conferência das Partes (COP) como seu órgão de tomada de decisão para avançar os compromissos assumidos pelos países na luta contra as mudanças climáticas. Desde então, várias COPs foram realizadas na Alemanha, Suíça, Japão, Argentina, Marrocos, Índia, México, Peru, entre muitos outros países ao redor do mundo que sediaram essas discussões globais.

Neste contexto, a COP30, realizada em Belém, Brasil, gerou altas expectativas, não apenas por sua localização na Amazônia, um dos epicentros globais da biodiversidade e regulação climática, mas também pela renovada liderança do Brasil na diplomacia ambiental latino-americana. A Conferência também ocorreu em um momento marcado pela intensificação de desastres naturais, avanços significativos no conhecimento científico sobre as mudanças climáticas e o inegável cruzamento do limiar de aumento de temperatura global de 1.5°C, após a adoção de múltiplos compromissos internacionais de mitigação e adaptação. Tudo isso reforça a urgência de avançar em direção a modelos de consumo e produção mais responsáveis, sustentados pela cooperação internacional e pela ação coordenada entre países, comunidades e setores.

Após o encerramento da Conferência, os resultados revelam avanços importantes, particularmente em financiamento e no reconhecimento de atores territoriais, mas também sinais de estagnação que geram preocupação para a ação climática global. Entre as conquistas mais notáveis estão a criação da Tropical Forests Forever Facility, que garantiu um financiamento inicial de 5 bilhões de dólares (WWF, 2025a); o aumento da meta global de financiamento climático para 1,3 trilhão de dólares anuais até 2035 (Pacto Global, 2025); o reconhecimento das consequências da desinformação para a ação climática (Pacto Global, 2025); e o aumento da participação de povos indígenas e comunidades locais (WEF, 2025b).

Além disso, na COP30, foi lançado o Mecanismo de Transição Justa, voltado a apoiar trabalhadores e comunidades impactados pela transição energética (Pacto Global, 2025), foi adotado um Plano de Ação de Gênero que reconhece a interseccionalidade dos impactos climáticos, discutiu-se medidas de comércio de carbono (WEF, 2025b) e foram destacadas as fortes interconexões entre duas das crises mais prementes da atualidade: a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas (WWF, 2025b). Adicionalmente, uma coalizão de 35 filantropos comprometeu US$ 300 milhões para projetos que integram saúde e mudanças climáticas (ONU, 2025b), e a aliança de Bancos Multilaterais de Desenvolvimento apresentou um guia prático para aprimorar a mensuração e o financiamento de investimentos ligados à natureza (BID, 2025).

Apesar desses avanços, a Conferência deixou lacunas importantes e tomou decisões que não responderam à urgência da crise climática. Entre elas estão a ausência de acordos claros e compromissos para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis (WWF, 2025b), o limitado consenso político para garantir compromissos sobre desmatamento e mudança no uso da terra (WWF, 2025b), o baixo reconhecimento dos direitos e contribuições de pequenos agricultores e comunidades afrodescendentes na luta contra as mudanças climáticas (Torres, 2025), e a falta de um roteiro claro para mobilizar os recursos financeiros esperados para adaptação, transição energética e prevenção do desmatamento (IIGCC, 2025).

Davos 2026: 

Após a COP30, foi realizada a 56ª Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, um encontro que reúne líderes globais para discutir os principais desafios geopolíticos, sociais, econômicos e ambientais. A reunião gerou altas expectativas entre tomadores de decisão, líderes empresariais, academia e sociedade civil, particularmente em um contexto internacional marcado pela crescente incerteza e tensões.

As discussões em Davos 2026 destacaram a crescente fragmentação internacional impulsionada por conflitos geopolíticos (WEF, 2026c). Líderes também sublinharam a intensificação da competição pelo acesso a recursos estratégicos e desenvolvimento tecnológico, o que está alinhado com as descobertas do Global Risk Report 2026 (WEF, 2026d). Estas discussões se alinham com a análise mais ampla do relatório: enquanto as tensões políticas e sociais dominam no curto prazo, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade continuam entre os riscos globais mais graves no horizonte de longo prazo.

Embora tenham havido conversas relevantes sobre questões sociais, políticas e econômicas, as referências explícitas à degradação de ecossistemas e à crise climática foram limitadas. No entanto, o chamado para co-criar soluções para desafios compartilhados, incluindo a perda de biodiversidade, o colapso de ecossistemas e o aumento de eventos climáticos extremos, permaneceu como uma mensagem transversal da reunião, implicando a ação de filantropos, do setor privado e de instituições públicas para gerar um impacto significativo (WEF, 2026).

Neste contexto, a agenda discutida em Davos sugere que a América Latina deve posicionar suas prioridades climáticas e de biodiversidade não apenas como compromissos ambientais, mas como componentes estratégicos para a estabilidade econômica, competitividade e resiliência geopolítica. Isso será crucial se a região busca permanecer relevante e atrair investimentos em um cenário global cada vez mais definido por gestão de risco, segurança de recursos e competição geopolítica.

Implicações para nossos membros

As conferências internacionais e as narrativas regionais revelaram oportunidades importantes para atores que investem capital (financeiro, humano ou intelectual) com foco em impacto. Entre elas: 

  • Aproveitar a riqueza ecológica e cultural da América Latina para propor projetos e iniciativas enraizados e desenvolvidos para as comunidades locais, posicionando a região não apenas como um território vulnerável, mas como um ator estratégico na estabilidade climática global.
  • Mobilizar e utilizar a Facility Florestas Tropicais para Sempre como um veículo de financiamento estratégico para apoiar iniciativas de conservação e fortalecer a gestão da biodiversidade por povos indígenas e comunidades locais.
  • Aproveitar o aumento das metas globais de financiamento climático e de adaptação para ampliar o acesso a recursos para projetos ambientais, sociais e territoriais.
  • Fortalecer a produção e disseminação de informações verificadas, reconhecendo o papel e a importância de proteger cientistas, jornalistas e líderes comunitários para consolidar alianças baseadas em evidências e a geração de conhecimento.
  • Criar conversas de alto valor que aproveitem o talento e a experiência regionais em tecnologia, empreendedorismo e conhecimento local para aprimorar a compreensão compartilhada, a ideação e a colaboração.
  • Avançar agendas transversais como gênero, transição justa e biodiversidade, ampliando oportunidades de investimento, inovação e colaboração entre fundações, empresas, universidades, aceleradoras e fundos de impacto.
  • Integrar as dimensões sociais, econômicas e ambientais de maneira interdependente ao projetar soluções que promovam investimentos e combinem desenvolvimento produtivo, equidade territorial e sustentabilidade ecológica para maximizar o impacto sistêmico.
  • Adotar abordagens estratégicas de gestão de risco climático que integrem cenários de curto, médio e longo prazo, incorporando riscos de transição e riscos físicos em decisões de investimento e filantropia.
  • Fortalecer as capacidades regionais em estruturação financeira inovadora, incluindo finanças mistas (blended finance), garantias, fundos catalíticos e mecanismos de mitigação de riscos capazes de mobilizar capital privado para soluções de clima e biodiversidade em escala.
  • Gerenciar a incerteza decorrente da fragmentação política internacional e de narrativas climáticas divergentes entre as grandes potências e a América Latina, antecipando possíveis mudanças regulatórias e uma redução na coerência global nos compromissos.
  • Reduzir a incerteza em relação ao potencial dos mercados de carbono na região, fechando lacunas em infraestrutura, transparência e confiança exigidas pelo mercado.
  • Assumir um papel mais ativo na promoção de padrões, mecanismos de financiamento e políticas que acelerem efetivamente a ação climática na região, particularmente quando a liderança internacional puder flutuar.
  • Abordar a limitada credibilidade ou apoio à transição energética em alguns países, particularmente aqueles altamente dependentes de combustíveis fósseis.
  • Fortalecer a coordenação entre entidades locais e nacionais para evitar a duplicação de esforços e aumentar a clareza e a confiança na alocação de recursos destinados à prevenção do desmatamento e da mudança do uso do solo.
  • Superar a complexidade na medição de impactos relacionados à redução de emissões e ao desmatamento, avançando em direção a métricas comparáveis e rastreáveis, alinhadas a padrões internacionais.
  • Gerenciar as tensões entre a estabilidade macroeconômica e a ambição climática em vários países da região, avaliando riscos associados a incentivos regulatórios, segurança jurídica e previsibilidade para investimentos de longo prazo.
  • Contribuir à despolarização dos debates sobre o clima por meio de narrativas baseadas em evidências que posicionem as mudanças climáticas como um desafio estrutural de longo prazo que requer soluções técnicas, cooperação multissetorial e continuidade institucional além dos ciclos políticos.

Oportunidades estratégicas para nosso ecossistema

Considerando o exposto, na Latimpacto reconhecemos que eventos como a COP30 e Davos geram articulações e consensos importantes entre nações inteiras. No entanto, também reconhecemos que, para além dessas discussões, existe um chamado à ação que depende de cada um de nós.

O mundo necessita de ações decisivas e mensuráveis que reconheçam o valor do conhecimento local, que envolvam múltiplos atores a partir de suas respectivas áreas de especialidade e que contribuam para mitigar duas das crises globais mais urgentes: as mudanças climáticas e a degradação da natureza.

Na Latimpacto, estamos comprometidos em avançar essa agenda de forma transversal e articulada em todo o nosso ecossistema. Por essa razão, continuaremos a apoiar nossos membros em conversas que unam o ecossistema, gerando conhecimento para a tomada de decisões informadas, aprendendo com casos de sucesso concretos e identificando oportunidades relevantes nesses temas.

Sabemos que os próximos anos serão desafiadores, mas estamos convencidos de que juntos podemos construir um ecossistema de impacto mais justo, inclusivo e resiliente. Como parte deste esforço contínuo, queremos convidá-los para a nossa conferência anual Mentes de impacto, onde continuaremos esta conversa e exploraremos caminhos concretos para a ação.


Sobre Latimpacto

Latimpacto é uma rede regional que trabalha para mobilizar capital e fortalecer o ecossistema de investimento de impacto e filantropia na América Latina e no Caribe. Fundada em 2020, conecta organizações filantrópicas, corporações, instituições financeiras de desenvolvimento, investidores de impacto e atores do ecossistema para promover a colaboração e desenvolver soluções de financiamento que apoiem iniciativas sociais e ambientais. Através de seu trabalho ao longo do contínuo de capital, desde a filantropia e o financiamento combinado até o investimento de impacto, a Latimpacto apoia o desenho de veículos de financiamento colaborativos, iniciativas de ecossistema e alianças que contribuem para escalar organizações e empresas com propósito de impacto em toda a região.

Latimpacto possui experiência específica em iniciativas relacionadas a clima, biodiversidade, cultura, educação e bioeconomia, trabalhando por meio de alianças multissetoriais, programas de relacionamentos com investidores, mapeamentos de ecossistemas e marcos de gestão de impacto. A organização tem liderado iniciativas regionais focadas em clima como o Catalytic Green Fund, programas de treinamento para investidores e programas que apoiam projetos focados na restauração ou conservação da natureza, como InNature Lab.

Para saber mais sobre nossos membros, nossa ambição e as iniciativas que apoiamos, convidamos você a explorar nosso site e acompanhar nosso trabalho em https://latimpacto.org


Bibliografia: 

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